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Sobre contos e pespontos

Entre um conto e outro, alguns pespontos. Preciso dos pespontos para manter o principal equilibrado e firme. Preciso todo o tempo... Aprendi a pespontar quando a minha mãe me ensinou a fazer flores. Não, não se aprende a pespontar quando se faz flores. Essas apenas me lembram a minha mãe que me ensinou a pespontar os arranjos que a vida nos dá.



quinta-feira, 15 de junho de 2017

Apenas um casal comum.

(Imagem retirada do Google)





Ele dizia que eu o massacrava, às vezes, dizia, entre beijos e abraços delicados. Ele rotulava-me, às vezes, e eu permitia porque eu gostava daquele jeito dele, educado e medroso de me perder de vista. Éramos doentes, até hoje seríamos, somos. A gente não se curou, a gente aprendeu a disfarçar nossos males, muito mais ainda nossas belezuras... Dois loucos idênticos! Um terceiro disse que foi um encontro infeliz quanto ao tempo dos dois, ambos em vendavais pessoais.

Ele dizia que era para nunca mais, eu também. Ele me detestava e me amava; e eu também, a ele.

Ele me deu um mundão de palavras, uma tempestividade inapropriada, perfeita em mim. Eu gostava de provocá-lo só para vê-lo em fogo, e, por isso, acabei por dar-lhe olhos e levantei a beirada da manta na qual ele insistia em se cobrir (o restante da manta, ele arrancou sozinho).

Eu sonhava com ele e nem em sonhos a gente conseguia ser um casal normal. Bom, a gente nunca foi um casal... vontade deve ter baixado mais vezes que espíritos na casa do vô Bento, entretanto.

Entretanto, havia doação bilateral. Havia magia. Há magia, até hoje os ventos gritam nos meus ouvidos o nome dele. Parece provocação. É! Mas eu aprendi a lidar com isso, converso com o vento, levanto uma lista enorme de argumentos, entre queixas, sorrisos, acusações, desejos homicidas e mostro ao vento que eu sou ocupada, tenho a minha vida - seja ela do jeito que for - para cuidar.

Ele dizia que eu era grossa, doce, corajosa. Eu também soube xingá-lo bem, isso foi o que melhor fizemos juntos!

Ele dizia que eu o massacrava... hoje, aplaudo, curvo-me, sorrio e faço uma reverência. Penso, "Sou tua, sou tua, até você me provocar".



Por Suzana Guimarães